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É Simples

É Simples

Nunca imaginou que rasgar uma simples fotografia lhe apresentaria tamanha complexidade.

Havia tomado a resolução de apagar da memória, de uma vez por todas, aquele bem sucedido romance que terminou de forma tão mal digerida há quase dois longuíssimos anos. E a maldita memória, por mais que tentasse, não se deixava apagar facilmente. Tentou de tudo. Novo (e entediante) romance, curso de culinária, meditação, viagem à Ásia, parperfeito.com.br, libertinagem, reprise do romance entediante, terapia, celibato, James Joyce, novela das 9 e até paintball. Nada lhe ocupava mais a cabeça que aquele desgraçado de seu passado recente. Já que a memória insistente não cedia, decidiu asfixia-la desfazendo-se de tudo que pudesse remeter àquele pulha. Organizou caixas e caixas com roupas da época (presentes dele ou coisas que constantemente elogiava), livros lidos por ambos, filmes em VHS que haviam comprado (mania ridícula a dele de ser “vintage”), vinis (tô falando!), taças de vinho, porta retratos, cremes de massagem, ursinhos de pelúcia e uma cinta liga branca que ele insistira para que ela comprasse no sex shop a caminho de seu trabalho. Tudo bem. A cinta liga ela simplesmente jogou no lixo, pois ficaria extremamente constrangida de doar para quem quer que fosse. Todo o resto, porém, apressou-se em encaminhar para instituições que conhecia e para alguns amigos igual e irritantemente “vintage”. As cartas e bilhetes que recebera dele ao longo dos anos leu na íntegra com sentimentos que tanto produziram lágrimas em seus olhos como palavrões em seus lábios. Cínico! Mentiroso! Fofo… Safado! Colocou tudo na churrasqueira desativada do canto do quintal e ateou fogo sem dó. Safado! Queria só ver se agora a memória resistiria a tamanha faxina. Também colocaria a teste o famoso ditado que liga, de forma tão simplória, os olhos ao coração. Procurou pela casa inteira por mínimas coisas que pudessem estragar seu plano. Encontrou ainda um controle remoto universal programável que ele havia configurado com o intuito de lhe facilitar a vida, mas que ela nunca soube mexer direito pois sempre preferiu ligar os aparelhos da sala um a um, cada qual com seu próprio controle. Pensou que aquele objeto era a prova cabal de como ele podia ser completamente incoerente e cheio de manias. Pois mesmo com sua obsessão por coisas “vintage” e nostálgicas, não se conformava que ela quisesse ligar seus aparelhos de forma mais arcaica e trabalhosa. Vai entender! Virar o vinil para ouvir o restante do disco pode; desligar a TV e o receiver da sala com controles diferentes, não! Enfim, doou o inútil controle para o sobrinho nerd que morava a quatro casas na mesma rua. Pronto; pensou que fosse tudo. Nada mais havia ali para alimentar sua memória com aquele caso de amor que lhe assombrava pensamentos e sonhos. Engano! Lembrou-se da caixa de fotografias que havia entulhado naquela parte de cima do armário que jamais voltara a abrir. Correu para pegar a escada e retirou a caixa, com dificuldade, do meio de bolsas emboloradas, aparelho de abdominal quase novo, fantasia de halloween, pôsteres dos Backstreet Boys e um kit de maquiagem empoeirado. Sentou-se na cama e abriu a caixa com receio e angústia. A primeira foto que lhe caiu ao colo havia sido uma que tiraram na primeira viagem internacional que fizeram juntos. Londres. Ele segurando a câmera com o braço direito esticado e ela pendurada lateralmente em seu ombro esquerdo. O majestoso Big Ben ao fundo. Ambos extremamente agasalhados e sorrindo felizes. A foto pareceu trazer todo o calor e todo o frio do mundo para o seu quarto, ou melhor, para o seu colo. Rendeu-se à memória. Olhou as costas da foto e leu o recado escrito com a letra agarranchada dele: “Elementar, meu caro amor. Te amar é simples!”. Tentou esconder o choro na garganta. Em vão. Chorou. Xingou-o mais uma vez de mentiroso por constatar que o amor de simples não tem nada. Mentiroso! Pegou a foto pela extremidade superior para rasga-la de cima a baixo. Parou. Nunca imaginou que rasgar uma simples fotografia lhe apresentaria tamanha complexidade. E nesta queda de braço com a memória, sabia que perderia feio. Chorou um tanto mais. Desistiu, enfiou a foto novamente na caixa e tratou de tatuar na mente aquela frase que o destino agora transformava em insuportável ironia: ”Amar é simples”.

Simples…

(Jair Oliveira)

É simples

Como o giro da Terra em torno do eixo

É simples

Como fim de filme sem desfecho

É simples

Como a confecção de um míssil

É simples

Como se livrar de um velho vício

É simples

Como escrever um livro “best-seller”

É simples

Como não querer saber mais dela

É simples

Como destruir fotografias

É simples

Esquecer o amor que foi um dia

Elementar, meu caro amor

Amar é simples…

É simples

Como ler Ulisses todo de uma vez

É simples

Como saber falar bom Português

É simples

Fazer gols iguais aos de Pelé

É simples

Não querer também quem não te quer (quando se quer)

É simples

Esconder o choro todo na garganta

É simples

Fingir que tristeza não é tanta

É simples

Esquecer tudo que foi da gente

É simples

Simplesmente ser indiferente

Elementar, meu caro amor

Amar é simples…

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3 Comments

  1. Li Nascimento

    O que dizer sobre esse gênio….
    Que transmite sempre o que eu quero dizer, sempre acaba transmitindo o que eu sinto, seja num groove, numa bossa, num samba, na levada do J.O….

    É único! É simples… Sua melodia vai e me eleva, me faz refletir, viajar, chorar e até sorrir, de uma forma descomplicada…. Que me acompanha desde 2000, quando eu descobri que … “é tão bom ter alguém que te telefone…. Só pra dizer como foi o dia!…” e de lá fez parte dos meus enredos, minhas cantigas de ninar para minhas filhas, já foi carta de amor …. E de despedida também….

    Jair….

    você transborda sentimentos ímpares, escassos nesse mundo de individualidade, onde não se preza o amor pela família…. E a Srª Khallil é um anjo, e uma mulher de extrema sorte por ter um homem que traduz explicitamente em formas de melodias e versos todo o amor pelas mulheres da vida dele….

    Só tenho que agradecer por tua sonoridade, tua musicalidade, teus versos, tuas rimas e prosas, me levarem á um hemisfério ímpar…. A um universo único, onde a boa música e o amor predominam e sempre hão de prevalecer….

    Espero em breve fazer parte do teu mural…
    Sucesso e todo amor do mundo pra ti….

    Sempre… Mas do que ninguém pra mim, você é pra sempre…

    Sou fã e muito fã!

    Li.

  2. EUCIA FERNANDA

    um compositor de almas, deixa claro a todos , transparências de suas vivências, sensibilidade e poesia…

    Amo seu jogo de palavras belas, limpas e poéticas, sempre poéticas…

    Amo as batidas “pegada” do seu violão:Únicos e particulares a você… ( ok. Lenine também..rsrsrsrsr, são inconfundíveis…)

    É tão maravilhoso sabermos, eu sendo uma mulher, que existe sim pelo vida, pelo mundo, homens como ti…

    Que enxergam a alma e beleza feminina além da estética, mas pela emoção que elas inspiram, onde o amor ultrapassa as paixões, soment epuro sentimento.

    Com o olhar divino da alma, sem se preocupar em ser entendido… apenas espera surpreender … ( E NOS SURPREENDE SEMPRE, COM TANTA LUZ E BRILHO MUSICAL NAS CANÇÕES…)

    Lindo demais!!!

    Sou fã assumo!!!

    Bjs, paz e musica…
    BOM DIA ANJO…

    • Jair

      Querida, Eucia!! Fiquei muito emocionado com o seu comentário aqui!!! Muito obrigado pelas palavras tão carinhosas. Grande beijo, J.O.

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