Artigo

Título: Placebo

Autor: Jair Oliveira

Ela ergueu o copo de vidro contra a luz da lâmpada da cozinha somente para ver se havia alguma mancha que não deveria estar por ali. Pesquisou tão minuciosamente que quase se esqueceu da razão de ter pego o copo em primeiro lugar. Água. Não para matar a sede. Água para empurrar goela abaixo alguns de seus tão prezados e inseparáveis comprimidos matutinais. Disposição, sossego, esperança, paciência, confiança, paz de espírito e até alegria, tudo devidamente prensado (comprimido) naquelas formas arredondadas, esbranquiçadas e com sulco diametral característico. Percebeu uma mancha suspeita na base. Girou novamente o copo contra a luz para certificar-se de que não era um mero reflexo. Passou o dedo por fora. Não saiu. Não era reflexo; era sujeira mesmo. E ainda por cima, por dentro. Irritou-se em silêncio, trocou o copo e efetuou similar pesquisa com o novo recipiente. Melhor. Não teria tempo agora, mas, mais tarde, certamente conversaria com a responsável por aquele copo imundamente guardado no armário. Água. Primeiro tomou confiança; mais um gole para a paciência; o terceiro foi para engolir paz de espírito. Talvez por mania ou método, sempre deixava a alegria para tomar por último. Assim tinha a falsa certeza de que sua corrente sanguínea nunca deixaria de processar corretamente a dose diária de felicidade que acabara de ingerir. Arremessou na pia o pouco de água que ainda havia no fundo do copo. Talvez mais uma vez por mania ou método, ou simplesmente por se lembrar da mancha suspeita que descobriu no recipiente que descartara anteriormente. Pronto. Pronta para encarar mais um dia de sua inescapável rotina. Reunião na empresa às 9 em ponto. Sem atrasos. Guardou de volta na bolsa as caixas de sentimentos comprimidos e correu. Correu, pois era isso que sabia fazer melhor na vida: correr. Corria e sentia que a medicina bem que poderia inventar comprimidos de tempo para que pudesse tomar no meio da tarde e correr um pouco menos. Só um pouco menos. Pois tal remédio de tempo não serviria para dar-lhe mais tempo para perder tempo com coisas (para ela) impertinentes. Seria para entulhar os minutos a mais com mais do mesmo, ou melhor, mais do menos. Mais ansiedade, mais desconfiança, mais destempero, mais insegurança, mais desequilíbrio. Ou seja, mais do menos. E, de fato, seu dia nunca parecia ser suficiente. Não lhe sobrava espaço para respiros e suspiros. Corria. Não se importava com sol ou chuva, com brisas ou abraços, com estrelas ou poesias. Corria; pragmaticamente corria. E sempre com os bons sentimentos devidamente guardados na bolsa. Não chorava e não ria; corria. E apesar de toda velocidade, do lugar não saía pois estava sempre presa à mesma inescapável e entediante rotina. Sofria. Ao fim do dia, percebia que alguns de seus milagrosos comprimidos não haviam surtido o efeito desejado. Onde estavam a paciência, a confiança, o sossego, a paz de espírito? E ainda pior, por que não sorria de alegria, de euforia? Estaria tomando os comprimidos de maneira equivocada? Nota mental para lembrar de ligar para o médico. Ou seriam placebos? Não, não é possível. O doutor é muito respeitado e alguns têm até tarja preta e selo de garantia. Só é necessário aumentar as doses, talvez. Isso. Antes de dormir aumentaria as doses. Por fim, aumentou; e junto cresceu o vazio. Pois os dias, para ela, continuavam a parecer sempre insípidos, apesar de suas doses diárias de plenitudes comprimidas. O tempo corria. Não sabia. Quem o mundo era para ela? Ou melhor, quem era ela para o mundo? Seria simplesmente mais alguém ou complexamente mais ninguém? Não sabia. Seria ela apenas uma mancha inconveniente que alguém procura no fundo de um copo de vidro? Nunca saberia. Poderia ser somente este enorme vazio… Ou ainda pior… Placebo.

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